Escrevo milhares de textos por dia.
Mentalmente.
Quando paro para transformá-los em pensamentos legíveis, como crianças travessas eles se esvaem.
E uma após a outra, inúmeras crônicas, poemas e poesias se perdem em meu espírito inquieto.
Feitas para serem lidas apenas uma vez por apenas uma pessoa. Eu.
Tenho tentado transferir para o branco do papel divagações fundamentais, porém as palavras escritas têm vida própria e não querem ser registradas.
Não podem, simplesmente.
Então, por agora, os deixo com um texto escrito no dia 24 de abril de 2010.
Lágrimas Mundanas
E perguntaram:
- Por que choras menina?
E a garota, pequena, de saia laranja enodoada, olhos cor de mel, que agora se encharcavam de gotas salgadas, olhos que pareciam globos terrestres que estampavam em sua crosta reflexos complexos, não lhes respondia.
Insistiram na indagação. Incrível habilidade humana de sentir prazer na confusão alheia, no cheiro dissoluto de uma alma em conflito direto com o caos interior. A curiosidade faz do homem um ser subjugado pelo incógnito.
- Por que choras menina?
No entanto, a pequena não ouvia. Ecoavam em sua mente vozes obstinadas que ela não digeria. Ora pareciam preces, ora pareciam risos, ora apenas um grito abafado. Não entendia e não pretendia refletir, pois já sabia que ponto havia atingido.
Levantou as duas esferas banhadas em mel e sal fixando-as em um ponto vago entre os poucos transeuntes que se atreviam a errar por ali. Os dias já não eram como antigamente, e não voltariam a ser.
A pele alva e empecida em volta de seus lábios movimentou-se. Parecia que queria falar, expelir o que entorpecia seus sentidos e fazia seu tempo parar, num instante de confusão infinito. Uma última lágrima rolou franzina e enfraquecida por sua face. Ela afastou o rastro salgado e olhou para o céu que, como se sentisse o que ela sentia, assoprava para longe carregadas nuvens perturbadas.
E o que se ouviu foi:
- Choro porque embaixo de nossos pés não existe mais chão e o ar que respiramos não possui oxigênio algum. As flores não exalam cheiros agradáveis e os pássaros não mais cantam. Choro porque a vida que vivemos não é nossa. Tudo nos foi arrancado aos poucos e estávamos muito ocupados para perceber o que acontecia a nossa volta. Enquanto a distração nos entretinha outro mundo era arquitetado por nossas próprias mentes. E aqui estamos.
Abriu os braços, como se esperasse um abraço daquele lugar que acabara de descrever. E disse ainda, virando as costas e desaparecendo entre paredes vazias:
- Choro porque sinto dentro de mim todos os sentimentos do mundo.
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