Mais um ano de indas e vindas, começo agora já o sexto.
Com 18 anos recém completados mudei para Campinas e deixei lá em meio as serras das Minas Gerais, minha cidade natal.
Cidade pequenina, provinciana. A igreja, a praça, a sorveteria, o lanche, o clube...
Vou para lá passar este último final de semana. Avistando a cidade ao longe, tenho a sensação de não pertencer àquele lugar. De que ele faz parte de memórias longíncuas.
Tento dispersar o sentimento, Afinal, lá nasci e cresci.
Já em casa, durante o preparo do almoço, minha mãe pergunta:
- É tão bom pegar manga direto do pé e chupar ali mesmo né?
(Sair atrás de um pé de mangas e voltar com dezenas delas é algo que meus pais fazem desde que me dou por gente).
Respondo:
- Nunca gostei mãe.
(Quando era pequena às vezes os acompanhava. Mas nunca gostei daquelas mangas que não davam para cortar com a faca, quanto menos de andar no meio do mato colhendo-as).
Minha mãe:
- Eu adoro. Você não gosta dessas coisas, você é urbana.
Não pensei nas palavras dela naquele momento. Nem no que elas podem significar. Eu ser mais inclinada ao urbano chega até a ser um truísmo.
Mais tarde saimos para alugar um filme.
Na rua me encontro com lugares que fizeram parte da minha infância e adolescência.
A casa onde passei uma festa de ano novo, outra onde morou a minha primeira paixão. Me lembro que quando voltava da escola mudava o trajeto só para passar em frente a casa, e quem sabe encontrá-lo.
A esquina que era ponto de encontro de amigos, a padaria, o ipê amarelo, o mercado, aquela casa que me metia medo quando era criança, o banco em baixo de uma árvore, a antiga escola, tantas casas de pessoas que eram conhecidas...
Todos estes lugares ali, indiferentes as minhas lembranças, ao tempo.
De volta a minha casa, entro no meu quarto e olho pela janela.
Mais recordações. Amigos. Vizinhos. Brincadeiras. Uma pipa. Molecagens. Esconde-esconde. Escapadas. Tombos. Fofocas. Brigas. Risadas. Conversas na madrugada. A Lua. Estrelas. Violão. Uma música. Amores. Lágrimas. Declarações. Decepções. Beijos. Visitas. Segredos. Surpresas.
Me pego com se ouvisse através do tempo:
- Sááááá! Vem embora já menina! Perdeu o rumo de casa?, grita minha mãe, irritada.
Ou quem sabe:
- "Sááá, você tá aí? Vamos lá em casa brincar", a amiga vizinha, que hoje está casada e com 3 filhos.
Posso ouvir também o barulho do caminhão que anunciava que meu pai chegava de viagem.E depois de crescida, a buzina dos carros dos meus amigos me buscando pra sair.
Me pergunto o porquê da nostalgia. Vêm a mente as poucas palavras de minha mãe: "Você é urbana".
Tento recordar quais eram meus sentimentos antigamente. O que encontro é um desejo inato de viver, conhecer, sonhar, fazer coisas maiores que aquela cidade pequena não me permitiria. É por isto que me sinto como se não fizesse mais parte daquele lugar?
Hora de ir embora pra casa, para a outra casa, a da cidade grande.
Olhando os prédios, a correria, a multidão, o trânsito, penso com meus botões.
Não pertenço acolá, tão menos cá.
Na verdade, nem a este mundo devo pertencer. Estou aqui só a passeio...
5 comentários:
Nossa querida, adorei seu texto! Não me atrevo criticar uma vírgula sequer. Muito bom!
Bejão
Quero passear com você!
O passado é muito importante! Ninguém é alguma coisa sem uma história!!
A soma do que fomos e somos nos conduz ao que seremos.
O mato que lhe incomodava, o motor potente que lhe alertava, as buzinas que lhe desvairava, o amor que brotava seus prantos, a disciplina dos chamados... Saudosismo, infeliz quem não o tem!
O importante é que tudo isso permite a mim e à várias pessoas afirmarem sem medo de errar, que vc se tornou alguém que é do bem!!!!
E nem me preocupo com seu destino, pois seu passado aparou todos os espinhos!
bjsmeligapqeusouseuamigp
Nossa Sá, confesso q emocionei. Lindo! Vocé me fez recordar inumeros acontecimentos. Ai q triste...
Nossa Sá, confesso q emocionei. Lindo! Vocé me fez recordar inumeros acontecimentos. Ai q triste...rs nao era pra ter sido anonimo naooo rs
Postar um comentário